A maré me levou. Minhas mãos não estão mais fortes como antes e os finais de semana se assemelham a banhos de sol. Não escrevo, não desenho e arranho o violão apenas para me aconchegar. As manhãs de segunda-feira são o anúncio do que eu não quero sentir. Caos. Virei melhor amiga do pronto-socorro para sair sempre com o mesmo diagnóstico. Essa tal maré é doença, mas ninguém parece acreditar muito nela. Nem eu. Porque os planos poderiam dar certo, não poderiam? Porque a resposta poderia estar fora das cápsulas de remédios que levam uma parcela valiosa do ralo salário. Na minha cabeça, ela está. Mas está longe. Porque alguma voz maldosa diz que nada vai dar certo, nunca. Que lutar é inútil e que as decepções vão ser cada vez piores. Logo eu, que sempre lutei pelo direito de ser feliz: toda a minha felicidade me levou ao fundo do poço.

Sobre o tempo que leva

*um rascunho sobre coisas que pululam

Há certo tempo quero escrever sobre como minha mãe sempre achou que a gente não podia sair de Havaianas na rua. Havaianas era chique nos outros. A gente não podia. Os outros iriam achar a gente com cara de pobre. Mas eu nunca acreditei nessa premissa. Hoje em dia, ela mesma ignora um pouco - só que prefere as Havaianas com salto. 

Há certo tempo também quero escrever sobre como já me submeti a horas de salão de beleza para que meus cabelos ficassem lisos. Como meus colegas da insuportável escola dos anos de fundamental faziam questão de salientar, cabelo enrolado era horroroso. Ainda mais com meu nariz horrível - ficava ansiosa esperando o dia em que iria operá-los. Há certo tempo percebi, bem em tempo, o quanto era besteira considerar a opinião dos meus colegas de escola.

Em tempos exatos: há quase dois anos reparei no quão idiota eu parecia com aquele cabelo liso modelado no salão que existia apenas pelo bel-prazer de ter cabelos lisos. No quanto eu sofria na minha própria casa, escovando três camadas de cabelo, muitas vezes debaixo de um calor insuportável. No quanto eu, que sempre busquei ser melhor, estava sendo bastante inferior.

Há certo tempo eu vejo que não existe uma maneira certa ou errada. Há certo tempo eu vejo que existem pessoas, aspirações, desejos e vários modelos de chinelos Havaianas.

<3

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O oito do Alexandre

Ontem terminei de ler “Nu, de Botas”, do Antonio Prata, e fiquei pensando no quão pouco a infância me inspira atualmente. Mas coincidentemente encontrei aqui hoje, em um blog antigo, algo que escrevi lá por volta do primeiro colegial sobre a infância. Sobre meu número 8, para ser mais exata.




Minha mãe era representante de uma marca de cosméticos e viajava pela região para tentar vendê-los à cabeleireiras. Em algumas dessas viagens, eu ia junto. 
Certa vez, quando eu tinha 5 anos e estava no Infantil II, ela me levou por um dia inteiro e eu não fui à escola. Lembro-me de que a viagem foi para Holambra, a cidade das flores. Os grupos de terceira idade e os grupos de viciados em excursões felizes com pessoas igualmente viciadas em excursões felizes adoram ir para lá. Não me lembro de flor nenhuma. Me lembro do moinho e de um chiclete chamado Azedinho, que eu acho que era muito bom, mas nunca mais vi para vender, assim como os chicletes Ouch! e os biscoitos Fofy. Me lembro de um almoço frustrado, shampoos, cabeleireiras esquisitas, clientes ainda mais, e do cabelo da minha mãe curto e enrolado, muito, muito antes de ela colocar o mega hair que usa agora.
Certo. No outro dia, cheguei à escola e descobri que eles tinham aprendido o número oito na aula passada. É, aprendido. Tratava-se de uma folha com várias linhas duplas. Na primeira, o número estava completo, em uma sequência infinita numérica invariável. Na segunda, a mesma sequência, mas os números estavam em pontilhado para que nós passássemos o lápis nº 2 da Faber Castell que todo mundo tinha igual por cima. Já na terceira, as linhas eram em branco e nós mesmos deveríamos fazer os números.
Pois bem. A tia me entregou uma folhinha e disse para eu tentar aprender o oito com algum coleguinha e depois fazer o nove, que era a matéria do dia. Sempre fui confiante de que o oito era uma bolinha em cima da outra até um dia alguém me dizer que não. 
Mas sempre há uma desconfiança. Outro dia, na reposição da aula de Língua Portuguesa e Literatura, a professora fez alguns testes e eu descobri que eu utilizo muito o sentido Visual. Na hora eu não acreditei muito, mas análises destes fatos do passado me fazem crer agora. Eu teria que ver para crer… Então continuando onde eu mesma me interrompi, eu me virei para o colega do lado. O nome dele era Alexandre. Me lembro que ele era um loiro esquisito que me deu uma escova de dentes muito louca de aniversário, de um dinossauro ou seja lá o que aquilo for, mas era “coisa de menino” e bem futurista, além de também ter arrebentado o penduricalho dourado (é, daqueles que tinham naqueles ursinhos de máquina) da minha ursinha preferida. O suficiente para que eu pegasse uma raiva eterna do meu coleguinha, porque comigo sempre funcionou assim: EU quebro/estrago/arrebento as minhas coisas e mais NINGUÉM. Mas, pois bem… Eu perguntei para o Alexandre como é que se fazia o número oito. Este me olhou com seu olhar esquisito e lunático, já que provavelmente estava pensando em fazer parte do cast do próximo Jurassic Park, e me respondeu:
- Faz uma bolinha e depois faz outra embaixo.
Eu olhei para o Alexandre meio desconfiada, mas eu era muito ingênua e acreditava em tudo o que meus coleguinhas me diziam. E vi ele fazendo o oito desta maneira. Então eu xinguei mentalmente os meus parentes que me diziam que o oito não era daquele jeito e fiz no meu papel, com um sorriso satisfeito no rosto, o oito com uma bolinha em cima da outra. E desde aquele dia o meu número oito é assim. Graças ao Alexandre. O Alexandre que se eu encontrar em qualquer lugar, não irei reconhecer, pois não lembro direito da face e muito menos do sobrenome. Mas ele é o responsável pelo meu número oito ter uma elegância peculiar. Obrigada, Alexandre! Você também faz o oito deste jeito até hoje?

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Segundas chances

* de 2012

a gente entende melhor nas segundas chances

mas eu lhe dou terceiras

quartas
quintas
e sextas-feiras.

confusão demais
pra pouco tempo
eu resolvo
deixa estar.

Nove e meio e treze

Nove e meio. Poderia estar bom, mas faltou algo. Uma gota de insuficiência que martela. Nove e meio parece ser a nota para tudo, ultimamente. Em tempos mais pessimistas, insistiria em um seis - aquela que não é boa, mas dá para passar. No entanto, o nove e meio incomoda a quem estuda a vida com afinco. Não adianta, na vida, reclamar com o professor. Não adianta: nove e meio nunca vai ser dez, a menos que você refaça a prova. Tinha um professor no fundamental que, quando a prova era muito boa, distribuia pontos extras. Onze, doze, até treze. Era uma felicidade instantânea permeada pelo desejo e a realização de ser melhor. É por isso que, de nove e meio, eu talvez queira ir para treze.

Playlist de Dezembro - o fim do desafio :)

Desafio completo.

Consegui resumir meu ano em músicas.

Gostaria de deixar mais explicações, mas acho que algumas coisas devem ficar subentendidas. Na memória, cada uma delas reside relacionada a um momento bom ou ruim. Melhor assim.

2013.12 by Izadora Pimenta on Grooveshark

1 - My Girl - The Temptations

2 - That Green Gentleman - Panic! At The Disco

3 - Hold On, We’re Going Home - Drake

4 - Music Is My Hot Hot Sexy - CSS

5 - Instant Crush - Daft Punk Ft. Julian Casablancas

6 - Hoje Aprendi de Verdade - Boogarins

7 - Everybody Dance - Chic

8 - Wrong Choice - The Lovely Feathers

9 - Ain’t No Mountain High Enough - Marvin Gaye Ft. Tammi Terrell

10 - Imunização Racional - Tim Maia

11 - Isn’t She Lovely - Stevie Wonder

12 - Wasted Days - Cloud Nothings

13 - September - Earth Wind And Fire

14 - Treasure - Bruno Mars

15 - Prometeu Ao Santo - Quarto Negro

16 - O Portão - Roberto Carlos

17 - Samba da Benção - Vinicius de Moraes

18 - Mais do Que Valsa - Marcos Valle

19 - I Want You - The Kooks

20 - Rocket - Beyoncé

21 - Royals - Mayer Hawthorne

Alguns fatos:

- “Ain’t No Mountain High Enough” apareceu em 4 playlists. 3 na versão do Marvin Gaye e uma na versão da Diana Ross. Mas, na verdade, ela esteve presente o ano inteiro. Foi como um mantra.

- “September”, do Earth Wind And Fire, só apareceu uma vez. Poderia ter aparecido antes, mas teve sua hora.

Mayerzinho e as caipirinhas

Ou “quando um gringo manda bem num mashup de músicas brasileiras”

Tags: chiclete

mauro t

o mauro t é personagem de um livro que nunca terminei de escrever. deveria. esse diálogo entre dois personagens falando sobre ele = <3.

- É tipo o que?

- Ah, esses negócios de Nova MPB aí… O cara teve uma fase de fixação com Jorge Ben.
Só que, quando Mauro começou a tocar, percebi que era bem mais do que esse papo de Nova MPB. Era algo totalmente dele. Parecia contar “oi, eu sou o Mauro, me chamavam de Tatá, eu gosto de Death Cab For Cutie e de Jorge Ben e resolvi lançar um álbum porque levei um pé na bunda”.
- Ele levou um pé na bunda, né? - tratei de confirmar minha suspeita com Henrique após ouvir a primeira música, “Medo de Magoar”.
- Daqueles bonitos. Foi a Letícia, lembra dela?
- Que estava com ele na sua casa na Copa de 2010 torcendo para a Holanda?
- A própria.
- Vaca.

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Eu não quero sair para tomar cerveja com pessoas que não estão lá

Parece até que não faz muito tempo, mas, aos 12 anos, meu maior pavor era a pergunta “Você é BV?”, que dominava os cadernos de perguntas da minha sala. Eu tinha 12 anos e era BV. Hoje, muitas das criaturinhas que nasceram à época do meu pavor talvez não sejam. Era um pavor imenso porque eu revelava, ali, um detalhe da minha vida não-amorosa que logo seria questionado pelas colegas de sala: “Meu deus, mas por que você ainda é BV? Isso não pode ficar assim! Vamos arrumar alguém pra você beijar!”. E foi assim que, desastrosamente, dei meu primeiro beijo aos 13, sétima série, no ônibus da fanfarra da escola, na qual eu tocava surdo, com um menino que tocava corneta. E o menino gênio girava a língua feito uma “hélice de helicóptero”, algo que as revistas que eu lia, como a Capricho, me alertavam que poderia existir. Nunca mais olhei na cara dele.

Ao revirar outros resquícios dessa época, encontrei um caderno de amigas e nossos mil casos e sonhos. Páginas inteiras preenchidas com textos sobre os caras que queríamos ficar, nossos objetivos de vida, nossas experiências inocentes, porém, chocantes à época. Era toda uma coisa que tinha uma mágica, uma libertação a ser feita em meio às lições de casa de matemática e às aulas entediantes de biologia.

E era assim: as meninas iam dizer para o cara da oitava série que eu era a fim dele. Quando a gente conseguia o MSN daquele menino do colegial, que “tinha cara de frigideira, mas era o mais bonito”, era a glória. Melhor ainda era se declarar para o amigo via depoimento ~não aceita~ do Orkut e ele dizer que também gostava de você porque achava que estávamos falando de amizade. Gravar um CD para alguém, mesmo que a gente nunca entregasse. Fazer uma música para alguém, mesmo que a gente nunca mostrasse. Sonhar com alguém que não faz nem ideia dos seus sentimentos. De pensar que achávamos isso terrível. Sonhos e esperanças distantes que nos davam perspectiva de que no futuro seria melhor. 

Essa coisa toda não sumiu. Ela mudou de contexto, mudou de forma, mas está nas mesas de bar, nas conversas pessoais e no Facebook, nas quais choramos, soltamos algumas risadas e nos permitimos pensar nessas banalidades em meio a todos os nossos novos afazeres (como eram as lições de casa).

Mas toda essa forma só é possível com um olho no olho. Longe das caras enfiadas na tela de um celular a todo o momento. Por favor, parem de transformar esses momentos tão simples em milhões de coisas chatas. Eu não quero sair para tomar cerveja com pessoas que não estão lá.

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Playlist de Novembro

Acabou e ta acabando!

2013.11 by Izadora Pimenta on Grooveshark

1 - Lovefool - The Cardigans
2 - Impossible Germany - Wilco
3 - So American - Portugal. The Man
4 - Ain’t No Mountain High Enough - Diana Ross
5 - Why Does It Always Rain On Me? - Travis
6 - Tender - Blur
7 - The Seed 2.0 - The Roots
8 - Merry Happy - Kate Nash
9 - When I Was Your Man - Bruno Mars
10 - Who’s David? - Busted
11 - Folhetim - Gal Costa
12 - Pink Rabbits - The National
13 - Walking After You - Foo Fighters
14 - Stay Away - Rooney
15 - Prototype - Tame Impala
16 - Uma Brasileira - Os Paralamas do Sucesso
17 - Little Black Dress - One Direction
18 - Lonely - McFly
19 - I’m Not Okay - My Chemical Romance
20 - Royals - Lorde
21 - A Praise Chorus - Jimmy Eat World