O oito do Alexandre

Ontem terminei de ler “Nu, de Botas”, do Antonio Prata, e fiquei pensando no quão pouco a infância me inspira atualmente. Mas coincidentemente encontrei aqui hoje, em um blog antigo, algo que escrevi lá por volta do primeiro colegial sobre a infância. Sobre meu número 8, para ser mais exata.




Minha mãe era representante de uma marca de cosméticos e viajava pela região para tentar vendê-los à cabeleireiras. Em algumas dessas viagens, eu ia junto. 
Certa vez, quando eu tinha 5 anos e estava no Infantil II, ela me levou por um dia inteiro e eu não fui à escola. Lembro-me de que a viagem foi para Holambra, a cidade das flores. Os grupos de terceira idade e os grupos de viciados em excursões felizes com pessoas igualmente viciadas em excursões felizes adoram ir para lá. Não me lembro de flor nenhuma. Me lembro do moinho e de um chiclete chamado Azedinho, que eu acho que era muito bom, mas nunca mais vi para vender, assim como os chicletes Ouch! e os biscoitos Fofy. Me lembro de um almoço frustrado, shampoos, cabeleireiras esquisitas, clientes ainda mais, e do cabelo da minha mãe curto e enrolado, muito, muito antes de ela colocar o mega hair que usa agora.
Certo. No outro dia, cheguei à escola e descobri que eles tinham aprendido o número oito na aula passada. É, aprendido. Tratava-se de uma folha com várias linhas duplas. Na primeira, o número estava completo, em uma sequência infinita numérica invariável. Na segunda, a mesma sequência, mas os números estavam em pontilhado para que nós passássemos o lápis nº 2 da Faber Castell que todo mundo tinha igual por cima. Já na terceira, as linhas eram em branco e nós mesmos deveríamos fazer os números.
Pois bem. A tia me entregou uma folhinha e disse para eu tentar aprender o oito com algum coleguinha e depois fazer o nove, que era a matéria do dia. Sempre fui confiante de que o oito era uma bolinha em cima da outra até um dia alguém me dizer que não. 
Mas sempre há uma desconfiança. Outro dia, na reposição da aula de Língua Portuguesa e Literatura, a professora fez alguns testes e eu descobri que eu utilizo muito o sentido Visual. Na hora eu não acreditei muito, mas análises destes fatos do passado me fazem crer agora. Eu teria que ver para crer… Então continuando onde eu mesma me interrompi, eu me virei para o colega do lado. O nome dele era Alexandre. Me lembro que ele era um loiro esquisito que me deu uma escova de dentes muito louca de aniversário, de um dinossauro ou seja lá o que aquilo for, mas era “coisa de menino” e bem futurista, além de também ter arrebentado o penduricalho dourado (é, daqueles que tinham naqueles ursinhos de máquina) da minha ursinha preferida. O suficiente para que eu pegasse uma raiva eterna do meu coleguinha, porque comigo sempre funcionou assim: EU quebro/estrago/arrebento as minhas coisas e mais NINGUÉM. Mas, pois bem… Eu perguntei para o Alexandre como é que se fazia o número oito. Este me olhou com seu olhar esquisito e lunático, já que provavelmente estava pensando em fazer parte do cast do próximo Jurassic Park, e me respondeu:
- Faz uma bolinha e depois faz outra em baixo.
Eu olhei para o Alexandre meio desconfiada, mas eu era muito ingênua e acreditava em tudo o que meus coleguinhas me diziam. E vi ele fazendo o oito desta maneira. Então eu xinguei mentalmente os meus parentes que me diziam que o oito não era daquele jeito e fiz no meu papel, com um sorriso satisfeito no rosto, o oito com uma bolinha em cima da outra. E desde aquele dia o meu número oito é assim. Graças ao Alexandre. O Alexandre que se eu encontrar em qualquer lugar, não irei reconhecer, pois não lembro direito da face e muito menos do sobrenome. Mas ele é o responsável pelo meu número oito ter uma elegância peculiar. Obrigada, Alexandre! Você também faz o oito deste jeito até hoje?

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Segundas chances

* de 2012

a gente entende melhor nas segundas chances

mas eu lhe dou terceiras

quartas
quintas
e sextas-feiras.

confusão demais
pra pouco tempo
eu resolvo
deixa estar.

Nove e meio e treze

Nove e meio. Poderia estar bom, mas faltou algo. Uma gota de insuficiência que martela. Nove e meio parece ser a nota para tudo, ultimamente. Em tempos mais pessimistas, insistiria em um seis - aquela que não é boa, mas dá para passar. No entanto, o nove e meio incomoda a quem estuda a vida com afinco. Não adianta, na vida, reclamar com o professor. Não adianta: nove e meio nunca vai ser dez, a menos que você refaça a prova. Tinha um professor no fundamental que, quando a prova era muito boa, distribuia pontos extras. Onze, doze, até treze. Era uma felicidade instantânea permeada pelo desejo e a realização de ser melhor. É por isso que, de nove e meio, eu talvez queira ir para treze.

Playlist de Dezembro - o fim do desafio :)

Desafio completo.

Consegui resumir meu ano em músicas.

Gostaria de deixar mais explicações, mas acho que algumas coisas devem ficar subentendidas. Na memória, cada uma delas reside relacionada a um momento bom ou ruim. Melhor assim.

2013.12 by Izadora Pimenta on Grooveshark

1 - My Girl - The Temptations

2 - That Green Gentleman - Panic! At The Disco

3 - Hold On, We’re Going Home - Drake

4 - Music Is My Hot Hot Sexy - CSS

5 - Instant Crush - Daft Punk Ft. Julian Casablancas

6 - Hoje Aprendi de Verdade - Boogarins

7 - Everybody Dance - Chic

8 - Wrong Choice - The Lovely Feathers

9 - Ain’t No Mountain High Enough - Marvin Gaye Ft. Tammi Terrell

10 - Imunização Racional - Tim Maia

11 - Isn’t She Lovely - Stevie Wonder

12 - Wasted Days - Cloud Nothings

13 - September - Earth Wind And Fire

14 - Treasure - Bruno Mars

15 - Prometeu Ao Santo - Quarto Negro

16 - O Portão - Roberto Carlos

17 - Samba da Benção - Vinicius de Moraes

18 - Mais do Que Valsa - Marcos Valle

19 - I Want You - The Kooks

20 - Rocket - Beyoncé

21 - Royals - Mayer Hawthorne

Alguns fatos:

- “Ain’t No Mountain High Enough” apareceu em 4 playlists. 3 na versão do Marvin Gaye e uma na versão da Diana Ross. Mas, na verdade, ela esteve presente o ano inteiro. Foi como um mantra.

- “September”, do Earth Wind And Fire, só apareceu uma vez. Poderia ter aparecido antes, mas teve sua hora.

Mayerzinho e as caipirinhas

Ou “quando um gringo manda bem num mashup de músicas brasileiras”

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mauro t

o mauro t é personagem de um livro que nunca terminei de escrever. deveria. esse diálogo entre dois personagens falando sobre ele = <3.

- É tipo o que?

- Ah, esses negócios de Nova MPB aí… O cara teve uma fase de fixação com Jorge Ben.
Só que, quando Mauro começou a tocar, percebi que era bem mais do que esse papo de Nova MPB. Era algo totalmente dele. Parecia contar “oi, eu sou o Mauro, me chamavam de Tatá, eu gosto de Death Cab For Cutie e de Jorge Ben e resolvi lançar um álbum porque levei um pé na bunda”.
- Ele levou um pé na bunda, né? - tratei de confirmar minha suspeita com Henrique após ouvir a primeira música, “Medo de Magoar”.
- Daqueles bonitos. Foi a Letícia, lembra dela?
- Que estava com ele na sua casa na Copa de 2010 torcendo para a Holanda?
- A própria.
- Vaca.

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um desabafo sobre o jornalismo de merda

Meu problema não é, necessariamente, com gente que nunca entrou em uma faculdade de Jornalismo e se diz jornalista. Se a pessoa realmente for jornalista por mérito, como vários que conheço, isso vale mais do que as horas gastas entendendo a ética e a semiótica. Esses tais jornalistas por mérito, no entanto, provavelmente já imergiram nos ensinamentos que nunca tiveram.

Meu problema é com o preguiçoso que se diz jornalista. O preguiçoso, diplomado ou não, nunca saiu de casa para fazer uma matéria e acha que todas as respostas estão no Google. Ou no site gringo que ele se orienta para fazer seu jornalismo de merda. Ou nas brodagens que constroem seu jornalismo de merda.

O jornalista de merda não cutuca feridas que não estão cicatrizadas. O jornalista de merda pensa apenas no próprio umbigo, e não no serviço que presta carregando o nome da profissão. O jornalista de merda só quer um nome para ostentar e andar por aí imaginando ser um rei do camarote de merda.

E o jornalista de merda ainda se julga bem, bem melhor do que os outros.

Coitado.

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Eu não quero sair para tomar cerveja com pessoas que não estão lá

Parece até que não faz muito tempo, mas, aos 12 anos, meu maior pavor era a pergunta “Você é BV?”, que dominava os cadernos de perguntas da minha sala. Eu tinha 12 anos e era BV. Hoje, muitas das criaturinhas que nasceram à época do meu pavor talvez não sejam. Era um pavor imenso porque eu revelava, ali, um detalhe da minha vida não-amorosa que logo seria questionado pelas colegas de sala: “Meu deus, mas por que você ainda é BV? Isso não pode ficar assim! Vamos arrumar alguém pra você beijar!”. E foi assim que, desastrosamente, dei meu primeiro beijo aos 13, sétima série, no ônibus da fanfarra da escola, na qual eu tocava surdo, com um menino que tocava corneta. E o menino gênio girava a língua feito uma “hélice de helicóptero”, algo que as revistas que eu lia, como a Capricho, me alertavam que poderia existir. Nunca mais olhei na cara dele.

Ao revirar outros resquícios dessa época, encontrei um caderno de amigas e nossos mil casos e sonhos. Páginas inteiras preenchidas com textos sobre os caras que queríamos ficar, nossos objetivos de vida, nossas experiências inocentes, porém, chocantes à época. Era toda uma coisa que tinha uma mágica, uma libertação a ser feita em meio às lições de casa de matemática e às aulas entediantes de biologia.

E era assim: as meninas iam dizer para o cara da oitava série que eu era a fim dele. Quando a gente conseguia o MSN daquele menino do colegial, que “tinha cara de frigideira, mas era o mais bonito”, era a glória. Melhor ainda era se declarar para o amigo via depoimento ~não aceita~ do Orkut e ele dizer que também gostava de você porque achava que estávamos falando de amizade. Gravar um CD para alguém, mesmo que a gente nunca entregasse. Fazer uma música para alguém, mesmo que a gente nunca mostrasse. Sonhar com alguém que não faz nem ideia dos seus sentimentos. De pensar que achávamos isso terrível. Sonhos e esperanças distantes que nos davam perspectiva de que no futuro seria melhor. 

Essa coisa toda não sumiu. Ela mudou de contexto, mudou de forma, mas está nas mesas de bar, nas conversas pessoais e no Facebook, nas quais choramos, soltamos algumas risadas e nos permitimos pensar nessas banalidades em meio a todos os nossos novos afazeres (como eram as lições de casa).

Mas toda essa forma só é possível com um olho no olho. Longe das caras enfiadas na tela de um celular a todo o momento. Por favor, parem de transformar esses momentos tão simples em milhões de coisas chatas. Eu não quero sair para tomar cerveja com pessoas que não estão lá.

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Playlist de Novembro

Acabou e ta acabando!

2013.11 by Izadora Pimenta on Grooveshark

1 - Lovefool - The Cardigans
2 - Impossible Germany - Wilco
3 - So American - Portugal. The Man
4 - Ain’t No Mountain High Enough - Diana Ross
5 - Why Does It Always Rain On Me? - Travis
6 - Tender - Blur
7 - The Seed 2.0 - The Roots
8 - Merry Happy - Kate Nash
9 - When I Was Your Man - Bruno Mars
10 - Who’s David? - Busted
11 - Folhetim - Gal Costa
12 - Pink Rabbits - The National
13 - Walking After You - Foo Fighters
14 - Stay Away - Rooney
15 - Prototype - Tame Impala
16 - Uma Brasileira - Os Paralamas do Sucesso
17 - Little Black Dress - One Direction
18 - Lonely - McFly
19 - I’m Not Okay - My Chemical Romance
20 - Royals - Lorde
21 - A Praise Chorus - Jimmy Eat World

algumas considerações sobre os últimos dias: balada indie, lulu, vida igual novela e mais

- quando eu tinha 16, era o máximo. agora, balada indie tá cada dia mais chata. não sei se é a idade ou a repetição. só sei que vem sendo cada vez mais legal apenas sair para beber com os amigos, na falta de opção.

- a vida começa quando você entrega o tcc. e você realmente não sabe o que fazer daqui pra frente.

- a gal costa é um monstro. assistir ao show dela me fez pensar seriamente nos meus planos futuros enquanto música como nunca.

- trabalhar no feriado é um saco. as pautas parecem que não existem e todos os condomínios próximos fazem festas com sons potentes saindo da churrasqueira.

- rodas em sol, trovas em dó.

- a vida é curiosa como uma novela das 8. vez ou outra descubro tramas escondidas há muitos e muitos anos que se desdobram no presente. daqui a pouco descubro que sou filha do césar.

- nunca uma polêmica da internet me estressou tanto quanto a polêmica do lulu. e também não vejo tanta vantagem em avaliar caras do passado no lulu. tem coisas que a gente não deve compartilhar. agora, tem caras que nem precisam de lulu… bem antes da era desse aplicativo meninas já faziam rodinha e comentavam sobre eles. bem melhor.

- eu sei que pedi por muitas cervejas neste final de semana, mas acho que elas foram até demais.

- às vezes acho que deveria dar mais ouvidos a coisas que ignoro por simples conveniência

- se tivesse dinheiro para abrir empreendimentos, seria rica

- em tempo de tanta gente cocô, é de se abrir um sorriso quando acorda, sente uma presença estranha na sua cama, começa a tatear e encontra uma patinha

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